
Há um interesse generalizado quando a questão é MELHORAR A QUALIDADE DE VIDA (usufruir bem-estar nas diversas áreas). Nesse contexto, quanto mais cursos realizamos sobre pessoas, desenvolvimento/comportamento humano, mais claro se torna o que é realmente importante na vida. E, por consequência, passamos a perder menos tempo com as questões pouco relevantes.
Quem tem filhos e/ou já se despediu para sempre de alguém muito querido, sabe o que eu quero dizer com “o que é realmente importante na vida”.
A vida é feita de momentos que, ao ocorrerem, são interpretados e registrados pela maneira como percebemos as nossas EMOÇÕES. Isso é essencial, abrangendo:
- Continuar sonhando e aprendendo sempre
- Cuidar de si e dos outros
- Solidariedade
- Relacionamentos saudáveis
- Liderar com respeito e lealdade
- Ser firme e amoroso na liderança de pessoas e na educação dos filhos
- Saúde física e mental
- Espiritualidade
- Amor
Avalie tudo aquilo que é realmente fundamental pra você.
Há várias teorias e abordagens que tratam do assunto comportamento humano. Neste artigo, destaco o ENEAGRAMA, tema ao qual tenho dedicado minha atenção desde que o conheci, em 1999 [1].
É importante ressaltar que, nos últimos anos, cada vez mais tem-se falado sobre INTELIGÊNCIA EMOCIONAL (especialmente depois que Daniel Goleman publicou um livro sobre o tema[2]) e também sobre INTELIGÊNCIA ESPIRITUAL.
“Em cada um de nós, há um princípio luminoso de brilho incomparável,
uma natureza aberta, calorosa e destemida.”
Tsoknyi Rinpoche
QUANDO NOS CONHECEMOS, O SOFRIMENTO É OPCIONAL
Todos nós temos pontos cegos em nossa personalidade; por isso, é importante o autoconhecimento.
Vemos as pessoas querendo acertar, mas cada qual supervalorizando o próprio jeito de ser. Além disso, há muita gente desejando manter relacionamentos mais satisfatórias, desde que os outros mudem. A questão é que o autoconhecimento não pode ser terceirizado.
Há uma tendência de mantermos o nosso “jeito de ser”, mesmo quando temos, interiormente, intenção de mudar. Nesse momento, os programas de desenvolvimento humano são muito úteis.
quanto menos nos conhecemos, mais nos apegamos a algumas emoções que sustentam as nossas crenças. Isso explica alguns fanatismos que vemos por aí. Para melhorar o nosso entorno, precisamos ter clareza de que tudo começa em nós, internamente.
As pessoas emocionalmente maduras são menos afetadas quando contrariadas, e buscam o pensamento crítico para avaliar melhor a situação, ou seja, pessoas imaturas perdem a oportunidade de aprender com os outros pontos de vista. Somente com senso de humildade conseguimos reconhecer os nossos erros e aprender a lição.
Por vezes, os indivíduos se tornam arrogantes e agressivos, o que apenas confirma a profunda insegurança pessoal que sentem. Quando nos conhecemos, não precisamos ofender ninguém e também podemos focar em hábitos saudáveis, que nos farão perceber que temos autonomia maior sobre a nossa vida. Até o bom humor pode se fazer mais presente, mesmo em situações adversas.
O ENEAGRAMA E AS 9 EMOÇÕES
O Eneagrama é um símbolo multidimensional, utilizado, entre outras coisas, como poderosa ferramenta de autoconhecimento e transformação humana. Mostra-nos 9 diferentes maneiras de perceber a realidade; cada uma delas sustentada por um “vício” emocional.
TIPO 1 – VÍCIO EMOCIONAL: RAIVA
O Tipo 1 tem como característica marcante a valorização do esforço e do mérito. Trata-se de pessoas exigentes e perfeccionistas, preferindo áreas em que possam chegar a resultados objetivos.
TIPO 2 – VÍCIO EMOCIONAL: ORGULHO
Tem como característica marcante o carisma e a disposição de ajudar. São pessoas empáticas e preferem áreas nas quais possam se relacionar com as pessoas.
TIPO 3 – VÍCIO EMOCIONAL: VAIDADE
Tem como característica marcante a preocupação com a imagem (especialmente a profissional) e a comunicação. São pessoas competitivas e preferem atuar em áreas em que possam se destacar.
TIPO 4 – VÍCIO EMOCIONAL: INVEJA
Tem como característica marcante a singularidade e a sensibilidade. São pessoas autocríticas e preferem atuar em áreas em que possam deixar a sua marca pessoal.
TIPO 5 – VÍCIO EMOCIONAL: AVAREZA
Tem como característica marcante a visão racional do mundo. São pessoas reservadas, observadoras e preferem atuar em áreas técnicas.
TIPO 6 – VÍCIO EMOCIONAL: MEDO
Tem como característica marcante a prudência e a percepção de riscos. São pessoas confiáveis, valorizam os grupos e preferem áreas nas quais possam manter o controle das situações.
TIPO 7 – VÍCIO EMOCIONAL: GULA
Tem como característica marcante a alegria e o entusiasmo. São pessoas otimistas, dinâmicas e gostam de áreas em que possam atuar com maior liberdade.
TIPO 8 – VÍCIO EMOCIONAL: LUXÚRIA
Tem como característica marcante a impulsividade e a força. São pessoas conhecidas pela “voz de comando”, pela baixa sensibilidade e grande capacidade de lidar com pressão.
TIPO 9 – VÍCIO EMOCIONAL: INDOLÊNCIA
Tem como característica marcante a tolerância e a evitação de conflitos. São pessoas tranquilas e têm facilidade em simplificar os processos. Preferem áreas de apoio, em que possam realizar as tarefas em seu próprio ritmo.
O que considero mais valioso e que vai muito além desta breve descrição, é que podemos, com o Eneagrama, conhecer os caminhos rumo a uma integração maior, bem como evitar as situações de estresse e, principalmente, desenvolver as virtudes humanas.
HIERARQUIA EMOCIONAL
A maneira como as emoções nos influenciam tem a ver com a dose. Ou seja, há uma grande diferença em usarmos as emoções em nosso próprio favor ou em sermos sequestrados por elas. Por isso, uma boa gestão emocional é tão ou mais importante que a formação acadêmica, pois possibilita uma administração melhor do próprio jeito de ser e a percepção da influência da dose de cada emoção.
Peguemos a raiva como exemplo:
Para alguns, a raiva é contida; para outros, transborda. Podemos imaginar o quão nocivo é um líder com raiva contida, que não consegue dar limites claros, ou alguém com raiva transbordando no trânsito ou na relação com o filho. Sem contar a influência negativa na própria saúde do indivíduo. Algumas pessoas ficam, ainda, remoendo o sentimento, ou seja, não só vivenciam a emoção e a percebem no corpo, mas também agregam a isso um pouco de razão.
INTELIGÊNCIAS EMOCIONAL E ESPIRITUAL
Temos um divino em nós, ou seja, a fonte de nosso ser é puro amor. Infelizmente, muitas vezes nos esquecemos disso e acabamos sendo afetados pela negatividade em nosso dia a dia.
Com o Eneagrama, podemos reconhecer que quanto mais nos apegamos ao nosso vício emocional, mais nos afastamos de nossa fonte do ser. Somente aumentando a consciência emocional podemos ter maior liberdade e autonomia.
A atenção a essas duas inteligências nos ajuda a entender o que está por trás das dificuldades que estamos passando e o enorme peso das questões não tangíveis.
Líderes com maior inteligência emocional e espiritual não estão somente preocupados com o seu próprio umbigo, já que têm consciência de que suas decisões afetam aos outros e ao meio em que estão inseridos.
Ou seja, na inteligência espiritual, cultiva-se e desenvolve-se a nossa parte “não-física”. Além da compreensão pessoal e dos outros, muito bem abordada na inteligência emocional, englobam-se, também, a apreciação e a compreensão de todas as formas de vida e do próprio universo.
Estamos num momento de grandes transformações no Planeta e em diversas dimensões – financeira, politica, religiosa, entre outras. Podemos, assim, deduzir o quanto nos fará bem se nossas decisões forem mais sensatas no que diz respeito aos avanços científicos e tecnológicos.
Felizmente, mais e mais pessoas estão se cansando da superficialidade de uma vida estritamente material.
Várias informações podem ser encontradas sobre o tema Espiritualidade e Eneagrama, entre as quais o livro Crescendo com o Eneagrama na Espiritualidade, do padre Domingos Cunha [3].
“Grandes homens são os que percebem que o espiritual
é mais forte do que qualquer força material”.
Ralph Waldo Emerson
NAS EMPRESAS
Ao participar do Congresso de Inteligência Emocional com Daniel Goleman, Marshall Goldsmith e convidados (set/2018 em SP), ouvi de um dos palestrantes que apenas 10% dos líderes são admirados e respeitados no mundo. Ou seja, na prática, é comum encontrarmos líderes arrogantes, vaidosos, antiéticos, assediadores, etc.
Em resumo, se você é líder e se acha “professor de Deus”, saiba que ainda há muito o que melhorar. E, se você é liderado, saiba que terá que aprender a lidar melhor com as instabilidades dos líderes.
Não é à toa que, visando dar melhores condições ao desenvolvimento humano, as melhores empresas já estão há muito tempo atentas ao conceito de qualidade de vida no trabalho (QVT).
As emoções afetam diretamente as nossas decisões e, consequentemente, influenciam no trabalho em equipe, na contratação, mudança no clima organizacional e na liderança. Abaixo, um breve resumo:
EMOÇÃO /
ESTILO DE GESTÃO |
ARMADILHAS | ATITUDES
A DESENVOLVER |
RAIVA
Gera um estilo de gestão focado na tarefa e rígido. “Faça do meu jeito!” |
Tornar-se crítico, inflexível e duro com a equipe. Dificuldade em avaliar alternativas. Expectativa/frustração. |
Flexibilidade, leveza e bom humor. Diminuir a excessiva autoexigência. |
ORGULHO
Gera um estilo de gestão paternalista, em que os aspectos emocionais são muito valorizados. |
Imparcialidade nas relações, centralização e dificuldade em dizer não. |
Percepção racional, delegar e desenvolver novos líderes. Separar o pessoal do profissional. |
VAIDADE
Gera um estilo de gestão baseada em desempenho, com grande valorização da imagem. |
Tornar-se impessoal, deslocar os holofotes para seus acertos, velocidade excessiva, desconsiderando detalhes importantes. Escravo de metas. |
Valorização do grupo, sentimento de “nós”, e não sobrecarregar o âmbito profissional. |
INVEJA
Gera um estilo de gestão crítico baseado na sua sensibilidade e singularidade. |
Grande flutuação de humor, vitimização, insatisfação e autocrítica. |
Focar na estabilidade emocional e na tarefa. Perceber os aspectos positivos do projeto. |
AVAREZA
Gera um estilo de liderança racional e frio. |
Distanciamento das pessoas e frieza nas relações, deixando a equipe “sem norte”. Apatia. |
Manifestar suas opiniões e se aproximar da equipe. Agilizar as decisões. |
MEDO
Gera um estilo de liderança baseado no controle. |
Desmotivar a equipe, que se sente vigiada e controlada. Preocupação excessiva, ansiedade e desconfiança. |
Diminuir apego aos controles, valorizar a inovação e as diferenças. |
GULA
Gera um estilo de liderança baseado na inovação. |
Começar muitos projetos e não concluir. Informalidade e superficialidade nas relações. Inconstância. |
Definir prioridades, focar e concluir os principais projetos. |
LUXÚRIA
Gera um estilo de liderança baseado na autoridade e no ímpeto. |
Tornar-se intimidador, deixando a equipe insegura e sem criatividade. Força excessiva. |
Empatia emocional que permita compartilhar sua força e não exigir que todos sejam como ele. Amorosidade. |
INDOLÊNCIA
Gera um estilo de liderança baseado no diálogo e anticonflito. |
Lentidão nas decisões e falta de posicionamento claro. Baixo entusiasmo. |
Manifestar sua opinião claramente, não procrastinar as decisões e definir metas claras. |
NA FAMÍLIA
Uma coisa é certa – mesmo que você esteja participando de um curso de cunho profissional, se for na área de comportamento humano e tiver filho(s), irá se lembrar deles. Se não tiver filhos, irá se lembrar de seus pais. De fato, só é possível separar o âmbito pessoal do profissional racionalmente. Emocionalmente não é tão simples como na teoria.
CONCLUINDO
Há muitas teorias e sistemas que tratam de comportamento humano e, também, diferentes formas de apresentá-las. Em nossa abordagem, tratamos do assunto com simplicidade e leveza, no desenvolvimento da autoconfiança para gerar maior autonomia emocional dos participantes. E, também, procuramos ajudá-los a responder: Como estou contribuindo para garantir relações mais saudáveis e um mundo melhor? Como posso melhorar?
Mas não se engane. Se você procura obter resultado excepcional com um treinamento, lembre-se: para que um facilitador consiga tornar a condução de um curso mais intuitiva, são necessárias horas à frente de grupos. Eis a importância de você procurar profissionais experientes e especialistas.
Entre as diversas abordagens, escolha profissionais com os quais você se identifique. Isso facilitará o processo de aprendizagem. Há também programas mais intensos, de imersão, por exemplo, ou mais suaves. Dependendo de seu momento, escolha um ou outro. De qualquer forma, o empenho deve ser constante, já que o aprendizado se dá no processo e não num momento específico. Trata-se de uma jornada longa e contínua. Na prática, acabamos ouvindo de fontes diferentes algumas “verdades universais”, como, por exemplo, a importância de aceitarmos que somos 100% responsáveis por nossas escolhas.
Continuo acreditando que o importante mesmo nas relações é o nosso “estado de presença”, quando mente e corpo estão no mesmo lugar. Isso certamente é mais valioso que qualquer teoria. Por outro lado, se há ferramentas enriquecedoras – e o Eneagrama é uma das mais valiosas – por que não utilizá-la, simplificar e aprimorar o seu dia a dia e os resultados com as pessoas?
Por fim, vale lembrar que a sua intenção de entender melhor de gente já faz com que você esteja mais preparado do que a maioria dos que ainda não se deram conta disso. Vá em frente!
Ah!, claro – lembre-se sempre do que é realmente primordial, essencial.
Ricardo Castello Branco – Atua desde 2001 com o Eneagrama
[1] Com Marcio Schultz – psicoterapeuta e uma das principais referências em Eneagrama no Brasil.
[2] Daniel Goleman – autor do best seller Inteligência Emocional, publicado em 1995.
[3] Autor de livros sobre Eneagrama e Espiritualidade.